segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Seus olhos sempre puros - Paul Éluard






Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte





dos mares,





De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.
Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça








E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.
Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra



E na água, vi-os.





Suas asas são as minhas, nada mais existe
Se não o seu vôo a sacudir minha miséria.
Seu vôo de estrela e luz,









Seu vôo de terra, seu vôo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.
Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.





Paul Éluard - Tradução: José Paulo Paes






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imagens: Jacqueline Roberts

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sísifo - Miguel Torga

Oh Holy Night - II Divo, em clima de natal...


imagem: Rina H.



Sísifo



Recomeça...
Se puderes
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.


Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
Sempre a sonhar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga

imagem: Florianda


Lembro-me sempre dessas palavras de Torga, em todos os finais de ano.Pode soar meio repetitivo, mas os recomeços são imprescindíveis na vida de todos.
Desejo, que a vida possa nos brindar com a força de acreditarmos nos recomeços, que possamos dar os "passos" em direção a liberdade, no caminho onde a luminosidade possa estar presente.

com carinho, votos de um ano feliz.

Edna S. Battaglini

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A curva dos teus olhos - Paul Éluard

imagem: Alaya Gadeh




A curva dos teus olhos
dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.



Berço noturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.



Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

imagem:Ewa Zauscinska



Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.




Paul Éluard (1895- 1952) in "Algumas das Palavras"
(Tradução de António Ramos Rosa)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Arquivo de palavras: Equinócio - Edna S. Battaglini




A aurora, entranhada nas nuances de mesclas sem formas,
azuis e alaranjadas, chegava ao mar. Iluminando os dedos encolhidos, dispersos em buscar conchas entreabertas, amanhecidas, sonolentas. Nos cabelos, longos como das sereias que acenavam ao longe, um ornamento, impregnado de pequenos e delicados veludos de areia lembrando uma Deusa mística, solitária, longe de seus oráculos e de suas lendas.

A brisa carregava o frescor do orvalho, junto com oferendas - pequenos brilhos roubados em segredo das dunas preguiçosas, entornando no ar seus encantos misteriosos.
Cansada, com os sonhos latejando, seu corpo confundia-se na moldura branca das ondas, moldava-se, tragado vagarosamente de pequenos quartzos com a doçura dos delírios sem nome. O mar ficou com seu tapete ainda mais intrigante, estampas de enigmas eternizados - (pedaços meus?) Terás agora, nas tardes solitárias, como repousar seus pés.





Edna S. Battaglini
imagem: Pierre Dunas
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Mar Absoluto - Cecília Meireles









Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.








O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.



Cecília Meireles



imagens: Kenvin Pinardy