terça-feira, 4 de outubro de 2011

A eterna Primavera de Cecília Meireles

                                                            imagem: Marcin Sacha


Neste mês, as cigarras cantam
e os trovões caminham por cima da terra,
agarrados ao sol.

Neste mês, ao cair da tarde, a chuva corre pelas montanhas,
e depois a noite é mais clara,
e o canto dos grilos faz palpitar o cheiro molhado do chão.



Mas tudo e inútil,



porque os teus ouvidos estão como conchas vazias,
e a tua narina imóvel
não recebe mais notícia
do mundo que circula no vento.





Neste mês, sobre as frutas maduras, o beijo áspero das vespas
- e o arrulho dos pássaros encrespa a sombra,
como água que borbulha.






Neste mês, abrem-se os cravos de perfume profundo e obscuro;




a areia queima, branca e seca,
junto ao mar lampejante




de cada fronte desce uma lágrima de calor.





Mas tudo e inútil,
porque estas encostada à terra fresca,
e os teus olhos não buscam mais lugares
nesta paisagem luminosa,
e as tuas mãos não se arredondam já
para a colheita nem para a carícia.







Neste mês, começa o ano, de novo,
e eu queria abraçar-te.
Mas tudo é inútil:
eu e tu sabemos que e inutil que o ano comece.




Escuto a chuva batendo nas folhas, pingo a pingo.
Mas há um caminho de sol entre as nuvens escuras.
E as cigarras sobre as resinas continuam cantando.

Tu percorrerias o céu com teus olhos nevoentos,
e calcularias o sol de amanhã,
e a sorte oculta de cada planta.






,
e entre o veludo da vinha, verias armar-se o cristal dos bagos.
E amanhã descerias toda coberta de branco,
brilharias à luz como o sal e a cânfora,
tomarias na mão os frutos do limoeiro, tão verdes

E olharias o sol subindo ao céu com asas de fogo.





Tuas mãos e a terra secariam bruscamente.


Em teu rosto, como no chão,
haveria flores vermelhas abertas.
Dentro do teu coração, porém, estavam as fontes frescas, sussurrando.

E os canteiros viam-te passar...


Cecília Meireles





terça-feira, 26 de julho de 2011

Passou o outono - Camilo Pessanha





Passou o outono


Passou o outono já, já torna o frio...
- Outono de seu riso magoado.
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...






- O sol, e as águas límpidas do rio.
Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,

Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?



Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...





Onde ides a correr, melancolias?
- E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...



Camilo Pessanha


imagens:Irina Todorova

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fragmentos de Mia Couto




Destino

à ternura pouca

me vou acostumando

enquanto me adio

servente de danos e enganos



vou perdendo morada

na súbita lentidão

de um destino

que me vai sendo escasso



conheço a minha morte

seu lugar esquivo

seu acontecer disperso



agora

que mais

me poderei vencer?





Fui sabendo de mim

por aquilo que perdia



pedaços que saíram de mim

com o mistério de serem poucos

e valerem só quando os perdia



fui ficando

por umbrais

aquém do passo

que nunca ousei



eu vi

a árvore morta...





Preciso ser um outro

para ser eu mesmo



Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta



Sou pólen sem inseto



Sou areia sustentando

o sexo das árvores



Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado

ansiando a esperança do futuro



No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço


Mia Couto


segunda-feira, 13 de junho de 2011

A pálida luz da manhã de Inverno Fernando Pessoa




A pálida luz da manhã de Inverno,

 O cais e a razão

Não dão mais esperança,
nem uma esperança sequer,
 Ao meu coração.


        O que tem que ser
        Será
        quer eu queira
       que seja
        ou que não.

     No rumor do cais, no bulício do rio
          Na rua a acordar
         Não há mais sossego,
          nem um vazio sequer,
        Para o meu esperar.
        O que tem que não ser
       Algures será,
         se o pensei;
         tudo mais é sonhar.

         Fernando Pessoa

imagens:Eve Livesey

quarta-feira, 8 de junho de 2011

chère amie françoise hardy & marc lavoine

Somos como o homem inacabado de Paul Eluard...








 Todas as árvores com todos os ramos com todas
                                                             [as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
                                                          [amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos



 

A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
                                                             [obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
                                                          [lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos






A semelhança dos olhares consentidos com os
                                                   [olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa

terça-feira, 7 de junho de 2011

Cecília Meireles






(...)

Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...

Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.

Vejo lábios, vejo braços
- por um momento persigo-os;
de repente, os mais exatos
perdem sua exatidão.








Se falo, nada responde.



Depois, tudo vira vento
e nem o meu pensamento 


pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

(...)



Cecília Meireles

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Leve, breve, suave - Fernando Pessoa








Leve, breve, suave,

Um canto de ave

Sobe no ar com que principia

O dia.

Escuto, e passou...

Parece que foi só porque escutei

Que parou.




Nunca, nunca em nada,

Raie a madrugada,

Ou 'splenda o dia, ou doure no declive,

Tive

Prazer a durar

Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir

Gozar.

Fernando Pessoa








quarta-feira, 20 de abril de 2011

Antônio Cabral






Quando voltares,
põe na tua voz, aquela flor azul que te ofereci.


Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te e os olhos se encham outra vez.

Ainda tens no gesto aquele susto que se enrolava todo nos meus dedos e punha à nossa volta um colar de silêncios ardendo?




Tudo mudou, bem sei.
Naquela tília o Outono já começou; e nas tuas palavras algumas folhas devem ter caído.
Mas, se voltares, põe a flor azul, põe o passado no gesto e na voz.

Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te e os olhos se encham.

 Antônio Cabral

terça-feira, 29 de março de 2011

Outono





CANÇÃO DE OUTONO


Estes lamentos

Dos violões lentos

Do outono

Enchem minha alma

De uma onda calma

De sono.



E soluçando,

Pálido, quando

Soa a hora,

Recordo todos

Os dias doidos

De outrora.



E vou à toa

No ar mau que voa.

Que importa?

Vou pela vida,

Folha caída

E morta.

Paul Verlaine   - Tradução: Guilherme de Almeida












Talvez nunca a ternura fosse tanta


como entre os montes amadurecidos

e quando as casas se elevam

entre o ouro e o fumo da tarde.

Silêncio que parece vir do lento

passado,



vozes que se dão em resignada melancolia

e tomam a forma dos frutos,

vinho e sombra que apagam o mar

nas árvores

onde não tardará o abandono,

memória do que somos.

Repousam sobre a noite os grous

enquanto as cidades crescem à nossa volta

contra o sul vencido.

Vento, ramo e sombra que caem

sobre as janelas ardentes:

lá onde a púrpura se reclina

sobre a água e a beleza

a verdade começa a surgir da espuma.

Henrique Dória



segunda-feira, 14 de março de 2011

Herberto Helder





Sobre os cotovelos
a água olha o dia

sobre os cotovelos.
batem folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio.

Quero saber o nome de quem morre:
o vestido de ar ardendo,
os pés e movimento no meio do meu coração.






O nome: madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva,
o nome:
a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.




Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável cego.

Herberto Helder

imagens:Ben Goossens

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Serena - Henriqueta Lisboa


SERENA
Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria


Henriqueta Lisboa 









Kenvin Pinardy Photography






quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ano Novo


Desejos






Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo, por sinal, que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso (sem tempero) e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça um joão-de-barro
Porque assim você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus entes queridos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

(...)
Que sempre exista   amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.


Victor Hugo








A GARRAFA

Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?

Que importa a mão que a tocou
— se foi a criança
ou o ladrão
ou filósofo
quem libertou a sua mensagem
e a leu para si ou para os outros.



Que se destrua contra os recifes
eu role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja vista por olhos humanos
que importa?

... se só de atirá-la às ondas vagabundas
libertei meu destino a sua prisão?

do grande poeta, Manuel Lopes







Aos amigos,que por aqui sempre passam, com os quais tenho contado nessa jornada, meu desejo de um bom 2011.Um abraço e dias de luz!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Yehuda Amichai - Nossa História


Nossa História

Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península.
Ficará claro para cada um de nós no resto de nossas vidas...

Yehuda Amichai é poeta e escritor israelense nascido na Alemanha

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um Natal de Luz


1 Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor,
sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.

2 Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.

3 Ainda que eu reparta todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor,
de nada me aproveita.

4 O amor é paciente,
o amor é prestável,
não é invejoso,
não é arrogante nem orgulhoso,

5 nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.

6 Não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.

7 Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8 O amor jamais passará.
As profecias terão o seu fim,
o dom das línguas cessará,
e a ciência será inútil.

9 Pois o nosso conhecimento é imperfeito,
e imperfeita é também a nossa profecia.

10 Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.

11. Quando eu era criança,
falava como criança, pensava como criança,
raciocinava como criança.
Mas, quando me tornei homem,
deixei o que era próprio de criança.

12. Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.

13. Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança, o amor;
mas a maior de todas é o amor.




(Coríntios)


Nat King Cole - O Holy Night

''O Holy Night''

Oh Holy Night

Oh Holy Night

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ODES NR. 340 - Ricardo Reis (01/07/1916)


ODES NR. 340





Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.
Suave é viver só.




Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.


Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


Ricardo Reis



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

PRECE - FERNANDO PESSOA





 
 
PRECE

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte!
O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!
Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também.
Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
       [...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa em "O Eu Profundo"

For Absent Friends -- Genesis

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ROSAS - Alphonsus de Guimarães










Rosas que já vos fostes, desfolhadas
por mãos, também que já se foram; rosas
 suaves e tristes! Rosas que as amadas,
 mortas também, beijaram suspirosas... 







 
Umas rubras e vás, outras fanadas,
 mas cheias do calor das amorosas...
 Sois aromas de alfombras silenciosas,
 onde dormiram tranças destrançadas. 




 
Umas brancas, da cor das pobres freiras,
 outras cheias de viço e de frescura.
 Rosas primeiras, rosas derradeiras!.. 




Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
para coroar-me, rosas passageiras,
o sonho que se esvai na desventura?


Alphonsus de Guimarães



                                             imagens: DeviantArt