sábado, 5 de dezembro de 2009

Os Instantes Superiores da Alma - Emily Dickinson

Os instantes Superiores da Alma
Acontecem-lhe - na solidão -
Quando o amigo - e a ocasião terrena
Se retiram para muito longe -



Ou quando - Ela Própria -
subiu A um plano tão alto
para reconhecer menos
do que a sua omnipotência -
Essa Abolição Mortal É rara
- mas tão bela como aparição -
sujeita a um ar absoluto -


Revelação da Eternidade
Aos seus favoritos - bem poucos -
A Gigantesca substância
Da Imortalidade
Emily Dickinson
in "Poemas e Cartas" Tradução de Nuno Júdice




segunda-feira, 26 de outubro de 2009

As Rosas - Machado de Assis







Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;





Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.






Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,












Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,







As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.










Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

imagens: Irina Todorova

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Entardecer na Praia da Luz - Albano Martins



Entardecer na Praia de Luz

Espreguiçados, os ramos das palmeiras filtram a luz que sobra do dia.
É já noite nas folhas.


Bebe-os de um trago:
saberás que, mais do que cegueira, a noite é uma embriaguez perfeita.

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"



imagens: John William Waterhouse

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Antônio Cabral


imagem: Miriana




Quando voltares, põe na tua voz
aquela flor azul que te ofereci.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham, outra vez.

Ainda tens no gesto aquele susto
que se enrolava todo nos meus dedos
e punha à nossa volta
um colar de silêncios ardendo?







Tudo mudou, bem sei. Naquela tília
o Outono já começou;
e nas tuas palavras
algumas folhas devem ter caído.

Mas, se voltares, põe a flor azul,
põe o passado no gesto e na voz.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham. É tão fácil!






Bebe comigo o sol

Detém-te a meu lado. O tempo
necessário dum olhar
sem ontem nem amanhã.
Só luz. Quem não percebe
as cascatas latentes
numa sombra, e não ouve
o crepitar duma urze,
que contas prestará
dos seus olhos? Bebe comigo
o sol na concha do silêncio.





Antônio Cabral










sábado, 10 de outubro de 2009

Desde o chão - Eugénio de Andrade







Desde o chão

A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca
procura
trabalhos de amor.
Encontra apenas
o nó de sombras das palavras.







Palavras...

Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras.



Palavras -


quando procuram claridades súbitas,
o sumo, a ponta extrema,
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas,
eis as areias.






Cala-te.




Deita-te.
Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima.
Agora arde.

Agora.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)




imagens: Emma Parra

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Minha luz junto da tua - Edgar Lee Masters









Quando o mar tiver devorado os navios
E os pináculos e torres
tiverem voltado às montanhas
E todas as cidades
se confundirem com as planícies
E a beleza do bronze
E a força do aço
Se dispersarem sobre continentes silentes
Assim como a areia do deserto é dispersa
Minhas cinzas junto às suas para sempre













Quando não mais a loucura, a sabedoria
Ou mesmo o fogo
Porque não mais o homem
Quando o mundo morto girando lentamente















vagar e decair através do vazio
Minha luz junto à tua
Na luz das luzes para sempre!


Edgar Lee Masters
imagens:Milena Safrova

domingo, 4 de outubro de 2009

Primavera - Florbela Espanca






PRIMAVERA

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!


Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!
.
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

.
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!

imagem:DevianART




A TUA VOZ DE PRIMAVERA

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Florbela Espanca